Eles não conseguem imaginar outro futuro
Mais uma vez, o coletivo de investidores institucionais, corretores, diretores de bancos e especuladores individuais (agora voluntariamente lobotomizados por robôs de IA) reagiu com um “vende tudo” na Bolsa de Valores de São Paulo.
Mais uma vez, o homem que assumirá novo mandato de quatro anos — bom de ouvido, fluido como um líquido que se adapta a qualquer recipiente — lançou no ar um nome para acalmar o mercado: Rafael Fonteles, governador reeleito do Piauí.
A que ponto chegamos na nossa visão congelada do futuro? Os agentes do mercado de capitais não conseguem enxergar outro futuro senão aquele limitado pela taxa Selic, pelo déficit público e pela estabilidade.
Do outro lado, os agentes da política econômica lulopetista não conseguem enxergar outro futuro senão aquele em que é necessário “acalmar o mercado”, apresentando no altar da Faria Lima alguém que seja a antítese de Luiz Inácio, mas a ele subordinado, de joelhos: alguém se lembra de Meirelles?
Rafael Fonteles, o primeiro nome aventado ontem, foi aluno brilhante em todas as escolas em que estudou. Não é Meirelles, eu sei disso. Mas, para o mercado, o que importa é não ser Luiz Inácio.
Eu teria dó, não fosse meu princípio de que, para o Presidente da República, ser objeto de piedade por parte da plebe é, na verdade, aviltamento. A suposta piedade que tenho de Luiz Inácio é que, neste ano, ele ainda realizou uma rara reunião completa do seu ministério, meio que para definir a campanha de reeleição. Mais raro ainda é que a gravou e a publicou na internet.
Nessa reunião, Luiz reclamou que já passou onze anos de governo acuado pelo déficit, pela inflação, pelo risco Brasil e pela taxa Selic. Pediu ideias aos ministros para que, se fosse reeleito, não tivesse de passar seus quatro anos finais preso à mesma jaula monetária.
Pobre Luiz Inácio. Ali, no meio de dezenas de pessoas que, ao aceitarem o cargo, sujeitaram-se a ser menores que ele próprio, a obrigação de apresentar ideias radicalmente diferentes para a condução da economia do Brasil caberia a ele mesmo.
Mas nem Luiz Inácio nem “o Lula” são capazes de enxergar um futuro diferente.
A jaula é construída pelos próprios traumas do filho dactiloprivo de Eurídice Ferreira de Melo. Ele não consegue escapar.
Presos estamos nós, a plebe, espremidos entre a elite econômica e a elite política, num tango (ou forró) de dois passos, no vaivém: dois para trás, dois para frente. Sem nunca sair do lugar.
Outro futuro
Como presidente, outro futuro imprimirei na psique da República: empreender é glorioso!
A tal âncora da estabilidade pela qual suplicam os investidores de renda fixa seria substituída pela âncora da instabilidade adiante. Sempre adiante, nunca atrás. Com índices de desenvolvimento sempre evoluindo, com a mudança sempre presente e a incerteza sempre no campo dos resultados positivos, quem se importará com a taxa Selic ou com o tédio das contas e dos desdobramentos do Orçamento da União?
Ninguém. Todos ansiarão por uma passagem no trem do crescimento econômico.
É o modelo que tantas vezes encontrou berço esplêndido no Brasil e que precisa ser resgatado.
Tirado do pó do caritó da história econômica. Elevado ao altar das igrejas da prosperidade, usando aquilo que já está implantado e enraizado no fundo das mentes dos agentes do mercado: preguiça é ruim.
Rentismo é feio! Muito feio. É quase um Bolsa Família de feio (ironia) nas mentes dos senhores do capital. A cada ponto de elevação da Selic, esses lordes enriquecem e proliferam, mas, de certo modo, também repudiam a si próprios: deveriam estar produzindo, inovando, trabalhando.
Ao trauma e à derrota se acostumam, porque ninguém lhes traz a estabilidade do empreendimento sem risco. Não que isso exista de verdade, mas, se o país cresce a 5% ou até a 8%, no jornal a realidade que se forma e se destaca é a dos vencedores. Os falidos, a república mói como pintinhos machos no triturador das granjas de ovos.
O apocalipse anunciado todo dia nas entorpecentes redes sociais hoje consome a massa cinzenta dos endinheirados, numa catástrofe financeira que nunca chega: estão cada vez mais ricos, não é mesmo? E isso não tem fim nem volta atrás. O futuro da humanidade é um futuro de cada vez mais informação e cada vez mais conhecimento — e conhecimento traz incerteza. É vasto o universo, pequena a cognição humana.
A IA não nos salvará dos perigos do conhecimento. A ansiedade continuará a comer a ação empreendedora dos capitalistas.
Cabe ao governo agir como mãe e pai de todos. Protetor. Cabe ao Estado posar de estabilizador, de suprarressegurador daqueles que escolhem deixar o rentismo para empreender, para produzir. Não é difícil. É até muito fácil, porque no fim depende de ótica, não necessariamente de tangibilidade. O que importa é parecer protetor, mesmo que não se seja.
Eleito presidente, trarei a incerteza de um futuro glorioso. Acabarei com o desejo antinatural pela estabilidade. A vida é um rio, todos sabemos disso.
Tarciso Vieira de Melo — futuro Presidente do Brasil
