O moedor de herdeiros
Às nove e um da noite
Luiz Inácio foi reeleito na noite de domingo, 25 de outubro, com 51,78% dos votos válidos. Um minuto depois começou a eleição de 2030. Não a do país, que ainda dormia, mas a do Partido dos Trabalhadores, que nunca repousa.
Não é força de expressão. Na segunda-feira de manhã, os blogs de Brasília já publicavam a lista de herdeiros: Haddad, Alckmin, Camilo Santana, Rafael Fonteles. Lia-se o testamento sem defunto — o testador acabara de ganhar o quarto mandato e ainda tinha confete no paletó.
Luiz Inácio não pode concorrer em 2030 e terminará o mandato aos 85 anos. O presidente do partido garantiu que o sucessor surgirá espontaneamente, desde que a legenda continue forte e ligada ao povo. Espontaneamente. Em quarenta e seis anos de PT, nem o cafezinho da reunião de diretório surgiu espontaneamente.
A primeira peça desse xadrez foi mexida em público, com estardalhaço e sem assinatura: Rafael Fonteles, governador reeleito do Piauí, para o Ministério da Fazenda.
Na terça-feira escrevi aqui que Luiz Inácio havia lançado o nome para acalmar o mercado. Talvez eu tenha errado o remetente. O destinatário, não.
O pior emprego do mundo
Na segunda-feira, ao negar que iria para Brasília, Fonteles fez uma piada: disse que tem em casa um exemplar de O pior emprego do mundo, o livro de Thomas Traumann sobre os ministros da Fazenda. Piada de quem leu o livro. Piada de matemático, que sabe contar.
Contemos, então. Desde a redemocratização, a cadeira já teve mais de vinte ocupantes. Veja o que restou deles:
- Dilson Funaro saiu com o Cruzado em pedaços e a moratória nas costas.
- Zélia Cardoso de Mello confiscou a poupança do país e foi morar em Nova York.
- Rubens Ricupero caiu em 1994 por uma frase dita sem saber que a antena parabólica a transmitia.
- Ciro Gomes saiu da Fazenda para quatro candidaturas presidenciais. Quatro derrotas.
- Antonio Palocci, o mais poderoso ministro de Luiz Inácio, foi derrubado pelo sigilo bancário de um caseiro. Depois, a cadeia.
- Guido Mantega ficou quase nove anos no cargo e ganhou como prêmio uma manchete de operação policial.
- Henrique Meirelles, o fiador do mercado, saiu candidato a presidente em 2018 e colheu pouco mais de 1% dos votos.
- Fernando Haddad deixou a Fazenda em março deste ano para disputar São Paulo e foi derrotado no primeiro turno.
Uma exceção: Fernando Henrique Cardoso. Mas FHC tinha um dragão — a inflação de quatro dígitos — e quem mata dragão vira rei. Não foi o ministério que fez o presidente; foi o Real.
Hoje não há dragão. Há déficit, Selic e um mercado que, no dia seguinte à eleição, derrubou a Bolsa até acionar o circuit breaker. Isso não se mata; administra-se. E administração de déficit não elege ninguém, apenas nomeia culpados.
O ministro da Fazenda é o homem que diz "não". Não aos ministros, não aos governadores, não ao centrão, não ao próprio partido. E é o próprio partido quem escolhe o candidato.
Germânico em Antioquia
Tibério tinha um problema chamado Germânico. Sobrinho e filho adotivo, herdeiro designado, general vitorioso e, pior de tudo, amado pelo povo de Roma. Um imperador velho com um herdeiro popular é um homem que ouve passos atrás de si.
Tibério não mandou matá-lo. Fez coisa mais fina: promoveu-o. Deu-lhe comando supremo sobre todas as províncias do Oriente, a maior honra do Império, e mandou-o para longe. Germânico morreu em Antioquia, aos 33 anos, e Roma nunca deixou de suspeitar de veneno.
A lição atravessa dois milênios sem perder o fio. Em Roma, como em Brasília, não se mata o herdeiro. Promove-se o herdeiro para um lugar onde ele morra de causas naturais.
A Fazenda é a Antioquia do PT. E, para usar uma imagem que já usei aqui, é também o triturador da granja: o herdeiro entra pintinho indesejado e sai estatística.
Quem sopra o balão
Repare na cronologia. Na segunda-feira, Fonteles disse que a Fazenda nem passava pela sua cabeça. Anteontem, quinta (29/10/26), a notícia já era outra: Luiz Inácio viajaria ao Piauí na semana que vem para fazer o convite pessoalmente. Fonteles foi ao X e negou de novo — negou o convite e negou a viagem.
Na mesma reportagem que anunciava a viagem, um detalhe passou quase despercebido. Os aliados de Fonteles o aconselham a fazer o contrário: tomar posse no Piauí e só pensar em Brasília depois de um ano.
Então quem sopra o balão? Não são os amigos. Amigo não empurra amigo para dentro do moedor, e muito menos com foto e manchete. As fontes são sempre as mesmas criaturas sem rosto: "caciques do PT", "integrantes da campanha", "interlocutores do Planalto". Ninguém assina, todos elogiam.
O balão de ensaio é a forma mais elegante de sabotagem, porque amarra a vítima pelos dois pés:
- Se recusa, Fonteles vira o homem que disse não a Luiz Inácio na hora em que o mercado sangrava. Ingrato, medroso, provinciano.
- Se aceita, renuncia ao mandato, perde a base e passa três anos e três meses como a cara de cada corte, de cada ponto da Selic, de cada número ruim.
Três anos e três meses, porque a lei manda que ministro candidato deixe o cargo em abril do ano eleitoral. Fonteles chegaria a abril de 2030 com o desgaste tatuado no rosto e sem palanque próprio. Os outros herdeiros chegariam descansados.
Até o atual ocupante da cadeira, Dario Durigan, achou o nome excelente. Ninguém elogia tanto um sucessor quanto quem conhece a cadeira.
E, nas mesmas notas de bastidor, é Camilo Santana quem aparece cotado para a Casa Civil. Vale lembrar: foi da Casa Civil que Dilma saiu, em 2010, direto para a Presidência. A Casa Civil é antessala; a Fazenda é sala de espera do esquecimento.
Não acuso ninguém pelo nome. Nem preciso. Em Brasília, quem não assina o vazamento assina o interesse. Elogio em off é a forma mais barata de enterro.
Presidencialismo de colisão
Chamam de presidencialismo de coalizão. Eu chamo de colisão, porque é isso que acontece: forças que vêm de direções opostas e se encontram no mesmo ponto, com estrago. O mercado exige um nome que o acalme. O centrão exige um ministro que saiba abrir o cofre. O PT exige um dos seus. A única figura que sobrevive ao cruzamento das três exigências é um petista com crachá de matemático — e o único disponível está sentado no Palácio de Karnak.
Olhe o preço. Rafael Fonteles foi reeleito no primeiro turno com 70,9% dos votos válidos, a maior votação proporcional para governador no país em 2026. No segundo turno, o Piauí deu a Luiz Inácio 75,88%, também a maior votação proporcional do Brasil. Ganhou em 224 dos 224 municípios, com mais de um milhão de votos de vantagem.
E o prêmio para o estado que mais acreditou é perder o governador antes mesmo da posse. Se aceitar, Fonteles renuncia e assume o vice, Washington Bandeira. Não tenho nada contra o vice. Mas ninguém, em lugar nenhum, vota no vice.
O eleitor de Caridade do Piauí não votou num estagiário de herdeiro. Votou num mandato de quatro anos para o seu estado, assinado por um homem que ainda nesta semana disse querer tomar posse "para cuidar do povo do Piauí". Trocar esse plano por uma vaga na fila de 2030 é trocar o futuro de três milhões de pessoas pelo futuro de um partido.
O Piauí pagou a conta do segundo turno. Agora chega a fatura. Chamem isso de estratégia, de projeto nacional, de sacrifício pela causa. Eu chamo de traição — não de Fonteles, que até aqui disse não, mas de quem decidiu que o voto de um piauiense vale menos que a disputa interna de um diretório em São Paulo.
O arado do Karnak
Se eu fosse Rafael Fonteles — e não sou, sorte dele — tomaria posse em janeiro. Governaria. Faria do Piauí a vitrine que o PT não tem em lugar nenhum do país.
Em 2030, o caminho de um governador bem avaliado do Nordeste até o Planalto é mais curto que o de qualquer ex-ministro da Fazenda. Luiz Inácio nunca foi ministro de nada. Dilma foi da Casa Civil. FHC precisou de um dragão. Fonteles não tem dragão; tem um estado.
Cincinato voltou para o arado porque Roma tinha para onde voltar sem ele. O Piauí ainda nem viu o arado do segundo mandato. Que ninguém o tire do campo antes da colheita só para enterrá-lo com honras em Antioquia.
Tarciso Vieira de Melo futuro Presidente do Brasil