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O moedor de herdeiros

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Às nove e um da noite Luiz Inácio foi reeleito na noite de domingo, 25 de outubro, com 51,78% dos votos válidos. Um minuto depois começou a eleição de 2030. Não a do país, que ainda dormia, mas a do Partido dos Trabalhadores, que nunca repousa. Não é força de expressão. Na segunda-feira de manhã, os blogs de Brasília já publicavam a lista de herdeiros: Haddad, Alckmin, Camilo Santana, Rafael Fonteles. Lia-se o testamento sem defunto — o testador acabara de ganhar o quarto mandato e ainda tinha confete no paletó. Luiz Inácio não pode concorrer em 2030 e terminará o mandato aos 85 anos. O presidente do partido garantiu que o sucessor surgirá espontaneamente, desde que a legenda continue forte e ligada ao povo. Espontaneamente. Em quarenta e seis anos de PT, nem o cafezinho da reunião de diretório surgiu espontaneamente. A primeira peça desse xadrez foi mexida em público, com estardalhaço e sem assinatura: Rafael Fonteles, governador reeleito do Piauí, para o Ministério da Fazenda. Na ter...

Eles não conseguem imaginar outro futuro

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Mais uma vez, Luiz Inácio foi eleito. Mais uma vez, o coletivo de investidores institucionais, corretores, diretores de bancos e especuladores individuais (agora voluntariamente lobotomizados por robôs de IA) reagiu com um “vende tudo” na Bolsa de Valores de São Paulo. Mais uma vez, o homem que assumirá novo mandato de quatro anos — bom de ouvido, fluido como um líquido que se adapta a qualquer recipiente — lançou no ar um nome para acalmar o mercado: Rafael Fonteles, governador reeleito do Piauí. A que ponto chegamos na nossa visão congelada do futuro? Os agentes do mercado de capitais não conseguem enxergar outro futuro senão aquele limitado pela taxa Selic, pelo déficit público e pela estabilidade. Do outro lado, os agentes da política econômica lulopetista não conseguem enxergar outro futuro senão aquele em que é necessário “acalmar o mercado”, apresentando no altar da Faria Lima alguém que seja a antítese de Luiz Inácio, mas a ele subordinado, de joelhos: alguém se lembra de Meire...

Within cells interlinked

Rodrigo Pimentel e Marcos Camacho personificam o hiperobjeto que é o crime organizado, cada um em vértices opostos desse monólito da morte. Acordam todo dia pensando estarem em grande empreitada um contra o outro, do "bem vs mal" ou "polícia vs bandido" ou "nós vs eles". Qualquer coisa assim, já que não importam os lados mas sim o versus. Porém, na verdade estão é um pelo outro. Aliados não vistos, não comunicados por palavras, mas partes do mesmo monólito, mesmo hiperobjeto. Pimentel engrandece seu dia com podcasts sobre política de estado; mas à meia-noite só tem para contar os livros e palestras que comercializou. Camacho passa transmissões sombrias por meio das carteirinhas OAB, mas sua janta é um prato frio sob a sola do coturno do carcereiro. Troque Pimentel/Camacho por Castro/Andrade, o raciocínio é o mesmo: o governador sacrificou quatro dos seus soldados em troca de uma sobrevida política; Andrade entregou cem "parças" para o moedor de c...

Não vencerás e não convencerás, mas tentarás

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  Venceréis, pero no convenceréis. Venceréis porque tenéis sobrada fuerza bruta, pero no convenceréis porque convencer significa persuadir. Y para persuadir necesitáis algo que os falta en esta lucha, razón y derecho. Me parece inútil pediros que penséis en España. Em 2022, Luís Inácio foi eleito porque teve 1.8% a mais de votos. Foi a primeira vez que votei nele, primeira vez que fiz campanha também: contribuí diretamente para três dúzias de notícias originais sobre a associação do então presidente e seus asseclas com a trinca nefasta de armas, nazismo e guerra. Nos dias ruins, ao dormir lembro-me desse tempo e alegro-me. Penso e afirmo (porque dentro da minha mente ninguém se contrapõe) que tirei de Hermógenes 0.9% de seus antigos eleitores (eu próprio inclusive), revertendo a maré apesar dos bilhões despejados na campanha. Fiz pela República. Coisas minhas apareceram até no Jornal Nacional, mas me orgulho mais de uma pequena matéria que criticou as análises que o Exército Brasil...

A ponta da espada

Comparando as operações norte-americanas de "mudança de regime" que requereram o uso de força militar convencional após 1980 (Granada, Panamá, Iraque e Afeganistão), concluo que o contigente militar atualmente no sul do Caribe é apenas a "ponta da espada". Ainda sem tempo para sumarizar os detalhes, mas já adianto a visão geral: - os elementos no Caribe ali estão para afinar o planejamento e testar hipóteses. - MV Ocean e seus pares de Special Ops noutros navios, talvez estejam treinando a parte mais delicada da operação (ex: capturar Maduro vivo). Por ser mais complicada, o treinamento deve ser o mais próximo da realidade e por mais tempo possíveis. - mentes sãs comandam o planejamento militar americano (por enquanto), e eles não estão dispostos a se arriscarem numa tentativa aloprada de "regime change". Por isso não irão fugir muito do histórico de tentativas exitosas onde o contigente empregado foi muito maior. Quando a chuva chegar, veremos mais navios...

Longe de casa é pra quem tem olho ruim

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Eu gostaria de escrever mais, explicar melhor. Mas filho pequeno é fogo e meu José já assiste documentário, demanda explicações. Tão novo, apenas 130 dias vida. É de admirar o quanto a vida de um pai muda rápido com o nascimento do primeiro filho.  É de se espantar o quanto a geopolítica muda rápido quando egoístas mal-amados assumem arsenais nucleares. Como num dèjá vu retorno os laços neurais que formei em fevereiro de 2020, ao gritar como louco sobre a gravidade da pandemia que todo mundo achava longe mas perto de casa já estava. Naquele mês a NASA publicou um mapa com as emissões de dióxido de nitrogênio sobre a China: no período de apenas 20 dias as emissões caíram drasticamente, como nunca haviam feito na história. Eu disse e redisse aos amigos: essa COVID é coisa grande demais para possamos entender com uma mente e campo de visão limitados, é hiperobjeto. Tanto era que somente imagens na distância do espaço sideral poderiam por inteiro o problema ver. Como mostrou a NASA. Ac...

Penumbra antes do sol

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[Escrito em 30 de setembro. Publicado em 03 de outubro] Não há noite que dure para sempre. Uma hora o sol a de brilhar, mas antes da luz desinfectante vem a fraca penumbra. É o que vemos hoje no promissor acordo guela-abaixo forçado por Donald Trump contra a vontade das partes envolvidas: não é luz, não é definitivo e pode voltar a escuridão rapidamente. Mas é penumbra. E já é bom ou menos ruim. Dá pra sair de casa sem ter que tatear no escuro. Uma paz forçada é e sempre foi a única opção para dois beligerantes envoltos em guerra total. Totalen krieg não é uma posição estratégica, mas um estado mental psicótico só interrompivel por exaustão. Estava atrasada essa exaustão. Parece que chegou quando o ataque ao Qatar falhou. Eu já havia desistido de prever desenvolvimentos importantes sobre Gaza. A lógica ali desapareceu dia muito. A própria roda da história parece senão quebrada, pelo menos bem atrasada. Chega um ponto que termina o trabalho do analista, porque não há nada p...