Within cells interlinked
Rodrigo Pimentel e Marcos Camacho personificam o hiperobjeto que é o crime organizado, cada um em vértices opostos desse monólito da morte. Acordam todo dia pensando estarem em grande empreitada um contra o outro, do "bem vs mal" ou "polícia vs bandido" ou "nós vs eles". Qualquer coisa assim, já que não importam os lados mas sim o versus.
Porém, na verdade estão é um pelo outro.
Aliados não vistos, não comunicados por palavras, mas partes do mesmo monólito, mesmo hiperobjeto.
Pimentel engrandece seu dia com podcasts sobre política de estado; mas à meia-noite só tem para contar os livros e palestras que comercializou. Camacho passa transmissões sombrias por meio das carteirinhas OAB, mas sua janta é um prato frio sob a sola do coturno do carcereiro.
Troque Pimentel/Camacho por Castro/Andrade, o raciocínio é o mesmo: o governador sacrificou quatro dos seus soldados em troca de uma sobrevida política; Andrade entregou cem "parças" para o moedor de carne, em troca de mais um dia num muquifo de bikinis dourados. A futilidade é a mesma.
Cultura, interlinked
Estão corretos os legisladores que proclamam leis "anti-Oruam", porque a cultura tem forte relação estatística com o "recrutamento para o crime organizado". Quem tem dúvida sobre isso não precisa procurar artigos científicos, mas se quiser aqui está um bom título para ler:
- "How Pop Can Army Strong Be? Uses of Popular Culture in US Army Recruitment Campaign"
Foram 121 mortos na chacina do dia 28 outubro de 2025. Desses, a maioria não era "líder do tráfico", mas sim soldados rasos que morreram pelo soldo de R$ 10.000/mês. Incluindo os quatro policiais executados.
O Rio de Janeiro é uma cidade rica, média salarial alta. Quantas profissões garantiriam a mesma renda mensal que tinham esses mortos? É uma pergunta retórica, só para demonstrar que a principal motivação para ser policial ou soldado do tráfico, não é econômica.
O tráfico que hoje querem classificar como "organização narco-terrorista" e que atua com domínio de território é de fato uma força paramilitar. E assim como a polícia militar, recruta soldados com base nos sensos de identidade, pertencimento e poder. Disseminados por meio da cultura, seja nas letras de Oruam ou nos filmes de José Padilha.